segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Serenou

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
O pescador não tem medo é segredo se volta ou se fica no fundo do mar
Ao ver a morena bonita sambando se explica que não vai pescar deixa o mar serenar
O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
A lua brilhava vaidosa de si orgulhosa e prosa com que Deus lhe deu
Ao ver a morena sambando foi se acabrunhando então adormeceu o sol apareceu
O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
Um frio danado que vinha do lado gelado que o povo até se intimidou
Morena aceitou o desafio sambou e o frio sentiu seu calor e o samba se esquentou
O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
A estrela que estava escondida sentiu-se atraída depois então apareceu
Mas ficou tão enternecida indagou a si mesma a estrela afinal será ela ou sou eu
O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
                                                                                                                         Clara Nunes

MUNDO INTERIOR

Ouço que a Natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol à ínfima luzerna.
Ouço que a natureza, — a natureza externa, —
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimidade
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.
E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro em mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho
Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia — e dorme.

Machado de Assis



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

avôhai

Um velho cruza a soleira
De botas longas de barbas longas de ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde quarava sua camisa e seu alforje de caçador
Oh meu velho e invisivél Avôhai
Oh meu velho e indivisível Avôhai
Neblina turva e brilhante em meu cérebro coágulos de sol
Amanita matutina que transparente cortina ao meu redor
Se eu disser que é meio sabido você diz que é bem pior
E pior do que planeta quando perde o girassol
É o têrço de brilhantes nos dedos de minha avó
E nunca mais eu tive medo da porteira
Nem também da companheira que nunca dormia só/Avôhai
O brejo cruza a poeira
De fato existe um tom mais leve na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem sua vida sua alma na altura que mandar
São os olhos são as asas/cabelos de Avôhai
Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu me criei
Voava de madrugada e na cratera condenada eu me calei
Se eu calei foi de tristeza você cala por calar
E calado vai ficando só fala quando eu mandar
Rebuscando a conciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa
Girando na carrapeta no jogo de improvisar
Entre cortando eu sigo dentro a linha reta
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar
Avôhai/Avôhai/Avôhai


Zé Ramalho

Dez Maneiras de Amar a Nós Mesmos


1 - Disciplinar os próprios impulsos.2 - Trabalhar, cada dia, produzindo o melhor que pudermos.
3 - Atender aos bons conselhos que traçamos para os outros.
4 - Aceitar sem revolta a crítica e a reprovação.
5 - Esquecer as faltas alheias sem desculpar as nossas.
6 - Evitar as conversações inúteis.
7 - Receber o sofrimento o processo de nossa educação.
8 - Calar diante da ofensa, retribuindo o mal com o bem.
9 - Ajudar a todos, sem exigir qualquer pagamento de gratidão.
10 - Repetir as lições edificantes, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, perseverando no aperfeiçoamento de nós mesmos sem desanimar e colocando-nos a serviço do Divino Mestre, hoje e sempre.
* * *
Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Paz e Renovação.
Ditado pelo Espírito André Luiz.

O Que Mais Sofremos


O que mais sofremos no mundo - Não é a dificuldade. É o desânimo em superá-la.
Não é a provação. É o desespero diante do sofrimento.
Não é a doença. É o pavor de recebê-la.
Não é o parente infeliz. É a mágoa de tê-lo na equipe familiar.
Não é o fracasso. É a teimosia de não reconhecer os próprios erros.
Não é a ingratidão. É a incapacidade de amar sem egoísmo.
Não é a própria pequenez. É a revolta contra a superioridade dos outros.
Não é a injúria. É o orgulho ferido.
Não é a tentação. É a volúpia de experimentar - lhes os alvitres.
Não é a velhice do corpo. É a paixão pelas aparências.
Como é fácil de perceber, na solução de qualquer problema, o pior problema é a carga de aflição que criamos, desenvolvemos e sustentamos contra nós.
* * *

Xavier, Francisco Cândido.
Ditado pelo Espírito Albino Teixeira.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Criação

Os ventos que roçam as campinas;

A brisa matinal que tange a pele;

O eco de infindos gorjeios que soam aos ouvidos

São notas da melodia de Deus.


Sonetos de esperança são entoados

Durante as alvoradas de todos os dias

O sol derrama por sobre o imenso plano

Miríades de raios multicores.


As entranhas do solo se agitam

A vida brota em esplendores

Matizes diversos formam

O mosaico de um só conjunto de cores.


Cintilam no firmamento gotas de luz

Nas noites mais densas de extrema escuridão

O espetáculo se patenteia

Extasiados, os olhos sequer refletem a beleza que seduz.


Montanhas imponentes se agigantam

Picos e montes avançam além das nuvens

Mares e oceanos desafiam o alcance do olhar

Faz se ouvir em todas as praias

Na cadência de um eterno murmúrio.


Rios e cachoeiras, regatos e lagos

Serpenteiam por entre vales e montes

Como as artérias de um organismo

Fertilizam tudo a sua volta.

São os mensageiros da vida quando cheios

E os agouros da morte quando secam.


Animais de diversas espécies

Manifestam-se numa profusão infinita

Um único sopro de vida abunda na diversidade

O verbo de Deus fez-se carne.

O que antes era sonho virou realidade.






José Aparecido Santos


Guanambi-ba, 16/10/2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida

a minha face?

Cecília Meireles