quinta-feira, 8 de outubro de 2009

CANCELA

Em um ponto não muito distante da minha memória surge sob as brumas empoeiradas das estradas a lembrança de velhas cancelas que ornavam os picadeiros do sertão. Cancelas pareciam portais mágicos por onde passavam as boiadas, tangidas por vaqueiros adestrados na arte de manejar e aboiar o gado. Montados em seus cavalos, vestidos com gibões feitos de couro cru, entoavam velhas melodias de vaquejadas que calavam na alma sensível dos sertanejos que mourejavam por todas as cercanias.

Sentados sobre as cancelas dos currais, crianças suarentas e encardidas de poeira e esterco aporrinhavam o coração de mães preocupadas que desconheciam o descanso, “atoladas” na faina diária do lar e do roçado. Nestas mesmas cancelas, peões robustos e calejados se reuniam com os seus patrões no afã de conferir, vacinar e ferrar os seus rebanhos. Ali mesmo, sobre os varões do curral, demandavam os domínios do pensamento e começavam a contar histórias de aventuras amorosas com a mesma alegria de quando estavam domando os seus cavalos para a montaria, ou ainda, quando estavam perseguindo alguma reis bravia e xucra que estourava do rebanho e adentrava pelas capoeiras fechadas e cheias de espinhos e unhas de gato.

Hoje, o progresso chegou e varreu a poeira das estradas, arrancou as cancelas; os peões viraram lendas, só não conseguiu apagar estas lembranças da minha memória que estão grafadas com as tintas da emoção. Por mais que labutaram não conseguiram destruir a minha alma sertaneja.

José Aparecido Santos

09/09/09

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